Nefrologia · Clínica Médica II · UFRGS

Infecção do
trato urinário.

Seis casos clínicos. Da cistite simples ao cálculo infectado, da bacteriúria assintomática à prostatite. Pensar antes de responder — e responder com base no raciocínio fisiopatológico.

Casos
06
E. coli
~80%
UFC dx
≥10⁵
Recor.
≥3/ano
01 / Fundamentos

O que é ITU?

ITU é a presença de microrganismos no trato urinário causando resposta inflamatória. A urina vesical em condições normais é estéril — só temos colonização na uretra distal. Pensar em ITU é pensar em onde, quem, e contexto.

Classificação anatômica

Cistite (ITU baixa)

Bexiga e uretra. Clique para ver detalhes.

  • Sintomas locais: disúria, polaciúria, urgência, dor suprapúbica, hematúria
  • Sem sintomas sistêmicos: sem febre, sem dor lombar, sem prostração
  • Exame: dor suprapúbica leve, sem Giordano
  • Diagnóstico: clínico — não precisa de urocultura na cistite simples
  • Risco: baixo de complicação em mulher hígida não-grávida

Pielonefrite (ITU alta)

Parênquima renal. Clique para ver detalhes.

  • Sintomas sistêmicos: febre alta, calafrios, náusea, vômito, mialgia, prostração
  • Sintomas locais: dor lombar / em flanco; pode ter disúria associada
  • Exame: punho-percussão lombar positiva (Giordano), taquicardia, febre
  • Diagnóstico: clínico + urocultura sempre + hemograma + função renal
  • Risco: sepse, abscesso, cicatriz renal, perda de função

Classificação clínica

ITU não complicada

Mulher não-grávida, hígida, sem alteração anatômica/funcional, sem comorbidade significativa. Tipicamente cistite ou pielonefrite leve em mulher pré-menopausa.

ITU complicada

Tudo que não é não-complicada: homem, gestante, criança, idoso, diabético, imunossuprimido, anomalia anatômica (cálculo, sonda, refluxo, neoplasia), instrumentação recente, paciente hospitalizado, ou pielonefrite grave/sepse.

ITU recorrente

Definição: ≥ 2 episódios em 6 meses OU ≥ 3 em 12 meses. Pode ser recidiva (mesmo germe, <2 semanas — falha terapêutica/foco persistente) ou reinfecção (germe diferente ou >2 semanas — recolonização vaginal/perineal).

Bacteriúria assintomática

Cultura positiva (≥10⁵ UFC/mL em duas amostras na mulher, ou uma no homem) sem sintomas. NÃO É DOENÇA — não tratar exceto em gestantes e pré-procedimento urológico invasivo.

02 / Microbiologia

Quem causa.

A esmagadora maioria das ITU comunitárias é por enterobactérias, especialmente E. coli uropatogênica (UPEC), que tem fímbrias P para adesão ao uroepitélio. Memorize o ranking:

AgenteFreq.Pista
E. coli~75-85%Comunitária, qualquer paciente
Staph. saprophyticus5-10%Mulher jovem sexualmente ativa ("lua-de-mel")
Klebsiella pneumoniae~5%Hospitalar, comorbidades
Proteus mirabilis~3%Urease (+) → urina alcalina → cálculo de estruvita
Enterococcus~3%Idosos, cateterismo, pós-ATB
Pseudomonas aeruginosararoHospitalar, instrumentação, ATB prévio
Candida sp.raroSonda + ATB amplo, diabético, imunossuprimido

Por que E. coli é a estrela?

Reservatório intestinal → contaminação perineal → ascensão pela uretra curta da mulher. Cepas uropatogênicas (UPEC) têm:

  • Fímbria tipo 1 (FimH): liga a manose do uroepitélio vesical
  • Fímbria P (PapG): liga ao globosídeo dos rins → fator de virulência da pielonefrite
  • Hemolisina, aerobactina: sobrevivem no ambiente urinário
  • Cápsula: escapa da fagocitose
03 / Diagnóstico

Como investigar.

EAS / sumário de urina

  • Leucocitúria (piúria): > 10 leucócitos/campo ou > 10.000/mL — marca inflamação
  • Esterase leucocitária (+): reflete piúria, S ~80%, E ~95%
  • Nitrito (+): bactéria Gram-negativa que converte nitrato → nitrito. Específico (95-98%), mas pouco sensível (~50%) — falso-negativo se Staph saprophyticus, Enterococcus, urina recente
  • Hematúria: presente em ~50% das cistites — não muda conduta
  • Cilindros leucocitários: sugerem origem renal → pielonefrite

Urocultura — quando e como interpretar

Não preciso de urocultura em...

Mulher hígida, jovem, com sintomas típicos de cistite simples — o tratamento é empírico. Pedir urocultura aumenta custo, atrasa início do tratamento e não muda conduta na maioria dos casos.

DEVO pedir urocultura em...

  • Suspeita de pielonefrite (sempre)
  • ITU complicada (homem, gestante, idoso, diabético, sonda...)
  • ITU recorrente
  • Falha terapêutica ou sintomas persistentes após 48-72h de ATB
  • Pré-procedimento urológico invasivo
  • Gestante (sempre, independente de sintoma)

Pontos de corte

CenárioUFC/mLInterpretação
Mulher sintomática, jato médio10²ITU (cistite/uretrite)
Mulher assintomática (2 culturas)10⁵Bacteriúria assintomática
Homem, jato médio10³ITU
Cateterismo vesical "in/out"10²ITU
Punção suprapúbicaqualquerITU (urina é estéril)
04 / Tratamento

Como tratar.

Cistite não complicada — 1ª linha

Nitrofurantoína
100 mg VO 6/6h por 5 dias
1ª escolha. Não usar se ClCr<30 ou pielonefrite (não atinge parênquima renal). Sem usar em <1 mês de gestação ou último trimestre.
Fosfomicina
3 g VO dose única
Conveniente, alta adesão. Boa para cistite simples. Cuidado: não cobre Proteus tão bem.
SMX-TMP
800/160 mg 12/12h por 3 dias
Evitar se resistência local >20% ou usado nos últimos 3 meses.
Cefalexina
500 mg 6/6h por 5-7 dias
Alternativa. Boa em gestante (categoria B).

EVITAR em cistite simples

Fluoroquinolonas (ciprofloxacino, levofloxacino) — guardar para casos selecionados. Risco de tendinopatia, aneurisma de aorta, neuropatia periférica e seleção de resistência.

Pielonefrite

Pielonefrite leve a moderada — ambulatorial

Ciprofloxacino 500 mg 12/12h VO por 7 dias OU levofloxacino 750 mg/dia VO por 5 dias. Pode-se iniciar com dose única de ceftriaxona IM/IV antes da VO.

Pielonefrite grave / sepse / vômitos / gestante — internar

Ceftriaxona 1-2 g IV 24/24h (ou cefepime se hospitalar) por 10-14 dias. Se grave/UTI: piperacilina-tazobactam ou carbapenêmico. Trocar para VO quando afebril 48h.

Bacteriúria assintomática

NÃO TRATAR — exceto:

  • Gestantes (rastreio universal entre 12-16 semanas — risco de pielonefrite, parto prematuro, baixo peso)
  • Pré-procedimento urológico com previsão de sangramento mucoso (RTUP, biopsia de próstata, ureteroscopia)

NÃO tratar: idosos, diabéticos, cateterizados crônicos, lesão medular, transplantados (após 1 mês).

05 / Caso 1

Cistite simples.

♀ 25 anos · sexualmente ativa · disúria

Paciente feminina de 25 anos com vida sexual ativa vem à consulta queixando-se de disúria nas últimas 12 horas. Refere também vontade de urinar mais frequente, permanecendo com sensação de não conseguir esvaziar a bexiga adequadamente. Relata dor suprapúbica de baixa intensidade, tipo desconforto.

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Quais os elementos da história (sinais e sintomas) mais relevantes?
Pense primeiro

Antes de procurar uma resposta, faça o exercício: classifique cada sintoma da paciente como local (sugere ITU baixa) ou sistêmico (sugere ITU alta). Tem algum sintoma sistêmico? Qual a duração? Há red flags?

A paciente tem uma síndrome cistítica clássica:

  • Disúria: ardor/dor ao urinar — irritação da mucosa vesical/uretral
  • Polaciúria: aumento da frequência urinária — bexiga inflamada não distende
  • Sensação de esvaziamento incompleto / tenesmo vesical: contração ineficaz por irritação detrusora
  • Dor suprapúbica leve: dor da bexiga inflamada
  • Início agudo (12 horas): consistente com infecção bacteriana
  • Vida sexual ativa: fator de risco MAIOR — o coito traumatiza uretra e transporta bactérias perineais para a bexiga ("honeymoon cystitis")

O que NÃO tem (e por isso afasta pielonefrite):

sem febre sem calafrios sem dor lombar sem náusea/vômito sem prostração
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Quais as possibilidades diagnósticas e por quê?
Pense primeiro

Mulher jovem, sexualmente ativa, com disúria aguda — qual o diagnóstico em ~80% dos casos? E quais os diferenciais que não posso esquecer?

1. Cistite aguda não complicada (mais provável)

Probabilidade pré-teste em mulher com ≥2 sintomas típicos é > 90%. O quadro é tão característico que diretrizes IDSA/EAU dispensam exame complementar nessa apresentação típica em paciente hígida.

2. Uretrite (IST)

Não excluir! Mulher jovem sexualmente ativa pode ter uretrite por Chlamydia trachomatis ou Neisseria gonorrhoeae — também causa disúria. Pista: corrimento vaginal, parceiro com sintomas, múltiplos parceiros, sangramento intermenstrual. Pedir EAS — se piúria sem bacteriúria/nitrito, pensar em uretrite/cervicite.

3. Vulvovaginite

Candidíase, tricomoníase, vaginose — causam disúria externa (ardor ao urinar pelo contato da urina com a vulva inflamada). Pista: corrimento, prurido, dispareunia, sem polaciúria/urgência típica.

4. Síndrome uretral aguda

Sintomas cistíticos com urocultura "negativa" — pode ser por contagem baixa (10²-10⁴), Chlamydia, ureaplasma ou cistite intersticial.

5. Cálculo de bexiga / corpo estranho

Mais raro em jovem, mas considerar em recorrência atípica.

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Quais perguntas adicionais e exame você faria?

História dirigida

  • Já teve ITU antes? Quantas vezes? Quando foi a última? → diferencia primeiro episódio de recorrência
  • Último período menstrual / atraso menstrual → excluir gestação (muda tudo!)
  • Método contraceptivo? → diafragma + espermicida = fator de risco
  • Parceiro com sintomas? Múltiplos parceiros? IST prévia? → uretrite/cervicite
  • Corrimento vaginal? Prurido? Dispareunia? → vulvovaginite
  • Febre, dor lombar, náusea? → checar mais uma vez para excluir pielonefrite
  • Doenças prévias (DM, imunossupressão), alergia a ATB, uso recente de ATB → escolha do antibiótico

Exame físico

  • Sinais vitais (afebril? estável?)
  • Abdome: dor suprapúbica leve esperada; punho-percussão lombar (Giordano) — deve ser negativa
  • Exame ginecológico se suspeita de vulvovaginite/IST ou se sintomas atípicos
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Próximos passos / conduta — como tratar?
Pense primeiro

Em cistite simples de mulher jovem hígida, preciso de exame antes de tratar? Qual antibiótico, qual dose, qual duração? Preciso de urocultura de controle?

Conduta

Tratamento empírico imediato — não precisa de EAS nem de urocultura em apresentação típica de mulher jovem hígida não-grávida.

Primeira linha (escolher uma)

Nitrofurantoína
100 mg VO 6/6h × 5 dias
1ª escolha brasileira. Concentra-se na urina.
Fosfomicina
3 g VO dose única
Adesão máxima.
SMX-TMP
800/160 mg 12/12h × 3d
Se resistência local <20%.

Medidas não-farmacológicas

  • Hidratação abundante
  • Micção pós-coital (esvazia bexiga, mecânica de "flush")
  • Higiene perineal de frente para trás
  • Evitar diafragma + espermicida se usar
  • Sintomáticos: fenazopiridina 200 mg 8/8h por 1-2 dias para alívio de disúria (cuidado: alaranja urina e pode mascarar sintomas — só usar nas primeiras 48h)

Seguimento

Sem necessidade de urocultura de controle se sintomas resolvem em 48-72h. Se persistir → reavaliar, pedir urocultura com antibiograma, considerar diagnósticos alternativos.

06 / Caso 2

ITU recorrente.

♀ 24 anos · 4 cistites/12 meses · diafragma + espermicida

Paciente feminina de 24 anos apresenta infecção urinária recorrente e refere ter apresentado 4 cistites nos últimos 12 meses. O último tratamento foi há 3 meses e usou nitrofurantoína por 5 dias com boa resposta. Tem história familiar de infecção urinária (mãe e irmã também). Informou que usa diafragma e espermaticida como método contraceptivo. Em episódio recente de pielonefrite aguda fez investigação de imagem do trato urinário que foi normal.

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Esta paciente tem ITU recorrente? Quais os critérios?
Pense primeiro

Defina ITU recorrente quantitativamente. Quantos episódios em quanto tempo? E há diferença entre recidiva e reinfecção?

SIM. Critério: ≥ 2 episódios em 6 meses OU ≥ 3 episódios em 12 meses. Ela tem 4 cistites em 12 meses — atende sobradamente o critério.

RecidivaReinfecção
Tempo< 2 semanas após tratamento> 2 semanas
MicrorganismoMesma cepaDiferente (mesma espécie ou outra)
MecanismoFalha terapêutica, foco persistente (cálculo, cisto)Recolonização vaginal/perineal — >90% das recorrências
CondutaInvestigar foco anatômico (imagem)Foco em prevenção

No caso, os intervalos são longos (não tem 4 em 12 meses todos juntos), com último episódio há 3 meses, sugerindo reinfecção. A imagem normal corrobora.

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Quais fatores de risco estão presentes no caso?

Vários — e a gente identifica todos antes de propor conduta:

1
Diafragma + espermicida Espermicida (nonoxinol-9) destrói lactobacilos vaginais, eleva pH vaginal, favorece colonização por E. coli. Diafragma comprime uretra, dificultando esvaziamento. Fator de risco modificável de MAIOR peso.
2
Atividade sexual Microtrauma uretral + transporte mecânico de bactérias perineais à bexiga. Frequência sexual correlaciona-se com risco de ITU.
3
História familiar (mãe e irmã) Predisposição genética: variantes em receptores TLR4, expressão de antígeno P (Lewis), e características do epitélio vaginal/uretral aumentam aderência da E. coli.
4
Idade jovem com primeira ITU precoce Mulher com primeira ITU antes dos 15 anos tem maior chance de recorrência ao longo da vida.

Outros fatores que NÃO estão no caso mas são clássicos:

pós-menopausa (atrofia) diabetes incontinência cistocele resíduo pós-miccional cálculo cateterismo
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Como abordar a prevenção? Quais as opções?
Pense primeiro

Antes de prescrever antibiótico profilático, quais medidas não-antibióticas têm evidência? E quando entram os antibióticos profiláticos — contínuo ou pós-coital?

1. Modificar fatores de risco (1ª medida)

  • Trocar o método contraceptivo — abandonar diafragma + espermicida. Optar por DIU de cobre, hormonais ou preservativo.
  • Micção pós-coital
  • Hidratação ≥ 2-3 L/dia (RCT recente demonstrou redução de ~50% nas recorrências apenas com hidratação)
  • Higiene perineal frente→trás
  • Evitar absorventes internos por muito tempo

2. Medidas com evidência variável

  • Cranberry (Vaccinium macrocarpon): proantocianidinas inibem aderência da E. coli ao uroepitélio. Evidência inconsistente — pode tentar.
  • D-manose: compete com fímbria FimH da E. coli — estudos pequenos sugerem benefício, baixo custo de oportunidade.
  • Probióticos vaginais (lactobacilos): restauram flora — evidência fraca mas razoável.
  • Estrogênio tópico vaginal: em pós-menopausa, restaura epitélio e flora lactobacilar — forte evidência nesse subgrupo (não se aplica à paciente).

3. Profilaxia antibiótica (quando medidas falharem)

Profilaxia contínua — dose baixa diária ou 3×/semana por 6-12 meses:

  • Nitrofurantoína 50-100 mg/dia
  • SMX-TMP 200/40 mg/dia
  • Cefalexina 125-250 mg/dia
  • Fosfomicina 3 g a cada 10 dias

Profilaxia pós-coital — dose única após relação sexual (se ITU clara relação com coito):

  • Nitrofurantoína 100 mg, ou SMX-TMP, ou cefalexina, dose única pós-coito.

Autotratamento — paciente bem-educada com ITU recorrente típica pode receber receita "em casa" para iniciar ATB ao primeiro sintoma. Útil em mulheres que reconhecem bem os sintomas.

4. Quando investigar mais?

Ela já fez imagem do trato urinário que foi normal. Não precisa repetir. Em caso de pielonefrite recorrente ou ITU complicada, indicar US de rins e vias / TC.

07 / Caso 3

Pielonefrite aguda.

♀ 20 anos · febre + Giordano (+) · dor lombar

Mulher 20 anos, branca, solteira, estudante; consulta na emergência por dor intensa nas costas. Iniciou com dor lombar direita à noite, progressiva, agora quase intolerável. Refere disúria no final da micção. Calafrios à tarde, temperatura axilar 39°C, náusea e vômitos. Nega queixas ginecológicas. PA 110/70, T 38,5°C, dor à palpação abdominal direita e punho-percussão lombar positiva à direita.

Temp. axilar
39,0
°C
PA
110/70
mmHg
Giordano D
(+)
positivo
Disúria
SIM
final micção
Vômitos
SIM
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Qual o diagnóstico mais provável e por quê?
Pense primeiro

Liste o que diferencia ITU baixa de ITU alta. Esta paciente tem qual quadro? Use o critério mais sensível e o mais específico.

Hipótese principal

Pielonefrite aguda à direita, ITU não-complicada (mulher jovem hígida, sem outras comorbidades aparentes).

Por quê? A tríade clássica de pielonefrite está presente:

  1. Febre + calafrios (39°C, calafrios à tarde) — resposta sistêmica
  2. Dor lombar / em flanco (lombar direita, progressiva, intensa)
  3. Sinais urinários (disúria de final de micção)

Acrescente: punho-percussão lombar positiva (Giordano +) — o sinal de exame físico mais específico de pielonefrite, indica inflamação do espaço perirrenal. Náusea e vômito completam o quadro sistêmico.

A combinação febre + Giordano + sintoma urinário tem alta especificidade para pielonefrite. Em mulher jovem, sem alteração anatômica/funcional, é classificada como não-complicada.

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Quais diagnósticos diferenciais — e o que os distingue?
DiagnósticoPistas a favorPistas contra (no caso)
Pielonefrite agudaFebre + Giordano + disúria + lombalgia + náusea
Nefrolitíase / cólicaDor súbita em cólica, irradia para ingle, hematúriaAqui dor é progressiva e contínua, não em cólica; febre não é típica de cólica isolada
ApendiciteDor migra de epigástrio → FID, Blumberg+, febre baixaDor é lombar e Giordano (+); apendicite raramente cursa com disúria
Doença inflamatória pélvicaDor pélvica, febre, corrimento, dor à mobilização do coloNegativa para queixas ginecológicas; localização lombar
Gravidez ectópica rotaAtraso menstrual, dor pélvica, instabilidade hemodinâmicaSem atraso; estável; dor lombar não típica
ColecistiteDor HCD, Murphy+, febre, náuseaLocalização lombar, não HCD; sem fator de risco
Abscesso renal / perinefréticoQuadro mais arrastado, falha de ATB, massa palpávelInício agudo — improvável como inicial; pode ser complicação
Pneumonia base direitaDor pleurítica, tosse, dispneiaSem sintomas respiratórios; Giordano não positiva em pneumonia
Pielonefrite enfisematosaDiabético, gás no rim em imagem, gravidadeSem DM relatado; mas considerar se má resposta ao ATB
?
Qual a conduta? (exames + tratamento)
Pense primeiro

Antes de prescrever, decida: interno ou trato ambulatorialmente? Quais critérios objetivos pesam? Que exames são obrigatórios em pielonefrite?

Exames complementares

  • EAS — piúria, esterase leucocitária, nitrito, hematúria, cilindros leucocitários (achado de pielonefrite)
  • Urocultura com antibiograma — SEMPRE em pielonefrite, antes da 1ª dose de ATB
  • Hemograma — leucocitose com desvio à esquerda
  • PCR, função renal (ureia/creatinina), eletrólitos
  • Hemocultura (2 amostras) se febre alta / suspeita de sepse / internação
  • β-HCG em toda mulher em idade fértil — muda escolha de ATB e plano
  • US de rins e vias / TC — se má resposta em 48-72h, suspeita de obstrução, ITU complicada, ou em pielonefrite recorrente

Decisão: internar ou tratar em casa?

Internar se: vômitos persistentes (não tolera VO), instabilidade hemodinâmica, sepse, gestante, comorbidade grave, dúvida diagnóstica, suspeita de obstrução, paciente sem suporte social, gravidez, idoso.

Esta paciente tem vômitos → considerar internação ou observação em UPA para hidratação e 1ª dose IV, depois transição para VO se evoluir bem.

Tratamento

Ceftriaxona
1 g IV/IM 24/24h
Dose inicial em emergência. Continuar 24-48h até melhora, então passar para VO.
Ciprofloxacino
500 mg VO 12/12h × 7 dias
Esquema VO ambulatorial. Considerar resistência local.
Levofloxacino
750 mg/dia × 5 dias
Alternativa, curso mais curto.
SMX-TMP
800/160 12/12h × 14 dias
Apenas se antibiograma confirmar sensibilidade.

Duração total: 7 dias com fluoroquinolona, 10-14 dias com beta-lactâmico ou SMX-TMP. Antitérmico, antiemético (ondansetrona), hidratação venosa. Reavaliar em 48-72h: melhora clínica esperada — se não, pensar em abscesso, obstrução, resistência → imagem.

Orientações de alta

  • Completar curso completo de ATB
  • Retornar se febre persistente após 72h, dor que piora, vômitos, sangramento
  • Não precisa de urocultura de controle pós-tratamento se assintomática (exceto gestante)
08 / Caso 4

Cálculo + infecção.

♀/♂ 28 anos · litíase recorrente · febre + dor lombar

Paciente de 28 anos apresenta há 24 horas dor lombar esquerda inicialmente leve que depois tornou-se intensa, acompanhada de náuseas, vômitos, febre, calafrios e mialgias. Na história passada, refere ter eliminado cálculos renais em mais de 3 ocasiões, e refere ter realizado inclusive remoção de um cálculo ureteral há 4 anos.

?
Qual a probabilidade diagnóstica? Explique sua opção.
Pense primeiro

Compare este caso com o anterior (caso 3). O que muda quando a paciente é litiásica? Pielonefrite + cálculo = simples ou complicada? Que red flag você não pode perder?

Diagnóstico principal

Pielonefrite aguda OBSTRUTIVA / complicada por nefrolitíase — possivelmente pionefrose (urina infectada represada acima da obstrução). Essa é uma emergência urológica.

Por quê?

  • Quadro clínico: dor lombar + febre + calafrios + vômito + mialgia = pielonefrite
  • História de litíase recorrente (≥3 cálculos eliminados + 1 cirurgia) = alto risco de obstrução atual
  • "Inicialmente leve que tornou-se intensa" = sugere progressão obstrutiva e infecciosa
  • ITU complicada por definição: qualquer pielonefrite + obstrução é complicada

Por que isso é grave?

Pielonefrite + obstrução = bomba-relógio.

  • Urina infectada represada acima do cálculo → pressão intrapélvica alta → translocação bacteriana → bacteremia / urosepse em horas
  • Antibiótico isolado não resolve — você precisa desobstruir (drenar)
  • Mortalidade da pionefrose obstrutiva sem desobstrução é > 25%

Diferenciais

  • Cólica renal não-infectada — pode ter febre baixa por translocação leve, mas calafrios + 39°C inclinam para infecção
  • Pielonefrite sem obstrução — possível, mas a história litiásica obriga a investigar
  • Abscesso renal/perinefrético — geralmente mais arrastado
?
Como investigar este paciente?

Imagem é mandatória — e urgente

TC de abdome SEM contraste (TC stone-protocol) é o exame de escolha. Identifica:

  • Localização e tamanho do cálculo
  • Hidronefrose / hidroureter
  • Gás (pielonefrite enfisematosa)
  • Abscesso renal/perinéfrico
  • Anatomia pré-procedimento

Se TC indisponível: US de rins e vias urinárias de urgência — detecta hidronefrose e cálculos >5 mm. Menos sensível para cálculo ureteral médio.

Laboratório

  • EAS, urocultura, hemograma, PCR, função renal, eletrólitos, gasometria, lactato
  • Hemocultura (2 amostras) — alto risco de bacteremia
  • β-HCG se mulher em idade fértil
  • Considerar coagulograma pré-procedimento

Avaliação metabólica (após resolução)

Em paciente litiásico recorrente: investigar etiologia da litíase — Ca, P, ácido úrico, oxalato, citrato, urocultura, análise do cálculo. Procurar hipercalciúria, hiperuricosúria, hipocitratúria, infecção por germes urease+ (Proteus → cálculo de estruvita, "coraliforme").

?
Como tratar?
Pense primeiro

O paciente está com pielonefrite obstrutiva — qual a ordem de ações? Antibiótico primeiro? Drenagem primeiro? E o controle dos sintomas?

1. Estabilização e suporte

  • Internação (não pode ser tratado em casa)
  • Hidratação venosa cuidadosa
  • Analgesia (AINE com cautela em obstrução / DRC; opioide se necessário)
  • Antiemético, antitérmico
  • Monitorização hemodinâmica — atenção a sepse

2. ATB empírico amplo IV — IMEDIATO

Ceftriaxona
1-2 g IV 24/24h
Opção em paciente sem critérios de sepse / sem ATB recente.
Pip-Tazo
4,5 g IV 6/6h
Sepse, hospitalar, comorbidade.
Meropenem
1 g IV 8/8h
Suspeita de ESBL, ATB prévio, choque séptico.

3. DESCOMPRESSÃO URGENTE do trato urinário

Esse é o ponto-chave do caso. ATB sem drenagem em pionefrose obstrutiva é insuficiente. Opções:

  • Nefrostomia percutânea — radiologia intervencionista, drenagem direta do sistema coletor. Preferida em paciente séptico/instável (mais simples, menos manipulação).
  • Cateter duplo J (stent ureteral) por endoscopia — uroendoscopia em centro cirúrgico. Pode ser usado se estável.

NÃO realizar litotripsia ou tentar retirar o cálculo no episódio agudo infectado — risco de disseminação bacteriana e choque séptico. Primeiro drena, depois (após resolução da infecção) trata o cálculo eletivamente.

4. Duração e seguimento

  • ATB IV até afebril 48h e estável, depois VO conforme antibiograma — total ~14 dias
  • Após resolução: planejamento eletivo para tratar a litíase (litotripsia extracorpórea, ureteroscopia, nefrolitotomia percutânea)
  • Investigação metabólica + orientações dietéticas (hidratação ≥ 2,5 L/dia, restringir sódio e proteína animal conforme tipo de cálculo)
09 / Caso 5

Bacteriúria assintomática.

♀ 72 anos · cultura (+) repetida · SEM sintomas

Paciente assintomática de 72 anos foi consultar nefrologista por orientação do médico devido a "infecção urinária recorrente". Traz urocultura positiva para E. coli >100.000 UFC realizada há 3 semanas. Nega sintomas urinários, dor lombar, febre, sintomas ginecológicos. Refere repetir uroculturas que sempre crescem bactérias, embora ela esteja bem. Tem tomado antibióticos na tentativa de negativar a urocultura, mas a urocultura segue positiva e agora com cepas resistentes.

?
Análise crítica: exames, hipótese e manejo. O que está errado aqui?
Pense primeiro

Esta paciente tem ITU? Tem alguma doença? Os antibióticos repetidos estão ajudando ou prejudicando? Qual o conceito-chave que precisa ser explicado ao colega que a encaminhou?

Diagnóstico

Bacteriúria assintomática — não é infecção urinária. Não é doença. A paciente tem sido tratada inadequadamente, e o tratamento causou a resistência bacteriana.

Conceitos críticos

  • Bacteriúria assintomática = cultura positiva (≥10⁵ UFC/mL em 2 amostras na mulher) sem qualquer sintoma urinário. Prevalência aumenta com a idade: até 15-20% em mulheres >70 anos, >50% em institucionalizados, >100% em sondados crônicos.
  • NÃO é infecção — é colonização. Sem inflamação, sem dano tecidual, sem benefício comprovado em tratar.
  • Tratar bacteriúria assintomática em quem não deve ser tratado:
    • NÃO reduz mortalidade
    • NÃO reduz incidência de ITU sintomática
    • NÃO melhora função renal
    • Aumenta efeitos adversos (Clostridioides difficile, alergia, IRA por ATB)
    • Seleciona resistência — exatamente o que aconteceu com a paciente

O que fazer agora?

  • SUSPENDER os antibióticos imediatamente
  • Não solicitar mais uroculturas de "controle"
  • Explicar ao médico que encaminhou: bacteriúria assintomática em idosa não se trata
  • Orientar paciente: monitorar sintomas (disúria, polaciúria, febre, lombalgia); se surgirem, retornar para avaliação
  • Hidratação, higiene; em pós-menopausa: considerar estrogênio vaginal tópico se sintomas associados (atrofia, dispareunia)
?
Quando está indicada urocultura para rastreamento (screening)?
Pense primeiro

Em quais situações tratar bacteriúria assintomática reduz desfecho clinicamente importante? Estas são as mesmas situações onde rastrear faz sentido.

Indicações de rastreamento (IDSA 2019)

1. Gestantes — rastreio universal entre 12-16 semanas de gestação (alguns serviços repetem no 3º trimestre).

  • Bacteriúria não tratada na gestação → 25-30% evoluem para pielonefrite
  • Risco aumentado de parto prematuro, baixo peso ao nascer, pré-eclâmpsia
  • Tratar com cefalexina, amoxicilina, nitrofurantoína (não no 1º e último trimestre) ou fosfomicina conforme antibiograma. Re-cultura de controle pós-tratamento.

2. Pré-procedimento urológico invasivo com previsão de sangramento mucoso

  • RTUP (ressecção transuretral de próstata)
  • Biopsia de próstata
  • Ureteroscopia, nefrolitotomia percutânea
  • Risco de bacteremia / urosepse pós-procedimento
  • Cultura ~5-7 dias antes, ATB direcionado iniciado antes do procedimento e mantido por 1-3 dias

NÃO rastrear nem tratar

  • Mulheres pré-menopausa não-grávidas
  • Mulheres pós-menopausa
  • Idosos comunitários ou institucionalizados
  • Diabéticos (homem ou mulher) — sim, mesmo diabéticos!
  • Pacientes com sonda vesical de longa permanência
  • Lesados medulares
  • Transplantados renais após o 1º mês
  • Pacientes para cirurgia não-urológica (cirurgia geral, ortopedia, etc.)

Casos especiais — discutidos

  • Transplantados renais < 1 mês: dados conflitantes — alguns serviços tratam, outros não. Decisão individualizada.
  • Pacientes com cateter ureteral / stent J: tratar apenas se sintomático.
Take-home do caso

"Cultura positiva sem sintoma" ≠ "infecção urinária". Em idosa hígida sem queixa, urocultura não deve nem ter sido pedida — e antibiótico nunca. A consequência é justamente o que vemos: resistência iatrogênica.

10 / Caso 6

Prostatite aguda.

♂ 45 anos · febre + dor hipogástrica + sintomas urinários

Paciente masculino de 45 anos procurou atendimento médico por estar há 3 dias com mal estar geral, mialgias e desconforto suprapúbico. Há 24 horas iniciou com febre alta (38,5°C), calafrios e dor em hipogástrio de moderada intensidade, relatando também aumento da frequência e urgência urinária.

?
Quais as hipóteses diagnósticas? Qual a mais provável?
Pense primeiro

O paciente é homem. Quando você vê homem + ITU, qual deve ser a sua primeira pergunta? E quais estruturas próximas à bexiga você precisa pensar?

Hipótese principal

Prostatite aguda bacteriana — é o cenário típico: homem <50 anos com febre, sintomas urinários irritativos e dor pélvica/perineal/suprapúbica.

Por quê prostatite e não "ITU simples"?

  • ITU em homem é sempre considerada complicada — anatomia favorável dificulta colonização; quando ocorre, sugere foco prostático
  • Quadro com febre + sintoma urinário + dor pélvica/perineal/suprapúbica em homem é prostatite até prova em contrário
  • Mialgia e mal-estar de 3 dias = pródromo bacterêmico
  • Próstata inflamada irrita bexiga → sintomas irritativos (urgência, polaciúria)

Diferenciais a considerar

HipóteseA favorContra
Prostatite bacteriana agudaHomem, febre, dor hipogástrica, sintoma irritativo
Cistite (em homem)Sintomas urináriosSem febre alta esperada; em homem, prostatite é mais provável
PielonefriteFebre alta, calafriosFaltariam dor lombar/Giordano +
Epididimite / orquiteSintomas urinários, febreFaltaria dor/edema testicular
Uretrite (gonocócica/clamídia)Disúria, comportamento sexualFebre alta é incomum; corrimento típico
ApendiciteFebre, dorLocalização e progressão diferentes
Abscesso prostáticoFalha de resposta a ATBConsiderar se evolução desfavorável

Quadro clínico-fisiopatológico da prostatite aguda

1
Via ascendente uretral / refluxo intra-prostático Bactérias (E. coli em ~80%) chegam à próstata por refluxo de urina infectada pelos ductos prostáticos.
2
Inflamação aguda do parênquima prostático Dor perineal/suprapúbica/testicular/lombo-sacra. Edema da próstata comprime a uretra → jato fraco, hesitação, retenção urinária aguda em casos graves.
3
Sintomas sistêmicos Febre alta, calafrios, mialgia, mal-estar — risco de bacteremia / sepse.
4
Exame: toque retal CUIDADOSO Próstata aumentada, quente, extremamente dolorosa, amolecida. NÃO fazer massagem prostática — risco de bacteremia / sepse.
?
Qual a abordagem mais adequada?
Pense primeiro

O paciente é jovem e estável. Trata em casa ou interna? Qual ATB consegue penetrar a próstata? Quanto tempo é o curso?

Investigação

  • EAS — piúria, bacteriúria, nitrito frequentes
  • Urocultura SEMPRE (com antibiograma)
  • Hemograma, PCR, função renal
  • Hemocultura se febre alta / suspeita de sepse
  • PSA NÃO É ÚTIL no agudo (está elevado pela inflamação — interpretar 6 semanas após resolução)
  • US prostática transretal apenas se suspeita de abscesso prostático (falha de resposta após 48-72h)
  • Exame físico: toque retal gentil (não vigoroso)

Decisão: ambulatorial × internado

Internar se: sepse, retenção urinária aguda, vômitos, comorbidade grave, instabilidade hemodinâmica.

Este paciente — moderado, estável, jovem — pode ser tratado ambulatorialmente com ATB VO + reavaliação em 48-72h. Alguns serviços optam por 1-2 dias de IV em UPA antes de alta com VO.

Antibioticoterapia

Princípio: precisa penetrar a próstata. Próstata tem barreira blood-prostate — drogas lipofílicas e levemente alcalinas atravessam melhor:

  • Fluoroquinolonas (cipro, levo) — penetração excelente
  • SMX-TMP — boa penetração
  • Doxiciclina — penetração razoável
  • Beta-lactâmicos penetram MAL na próstata crônica (em prostatite aguda, a inflamação rompe a barreira e eles atingem o tecido — por isso ceftriaxona funciona no agudo).
Ciprofloxacino
500 mg VO 12/12h × 4 semanas
Padrão-ouro ambulatorial.
Levofloxacino
500-750 mg/dia × 4 semanas
Alternativa.
SMX-TMP
800/160 12/12h × 4-6 semanas
Se quinolona contraindicada / resistência.
Ceftriaxona
1-2 g IV 24/24h (internado)
Início no hospital, transição para VO.

Duração total: 2-4 semanas (alguns autores 4-6 semanas). Curso longo previne evolução para prostatite crônica e abscesso.

Medidas adicionais

  • Hidratação, antitérmico, AINE (cuidado com função renal)
  • Alfa-bloqueador (tansulosina) pode aliviar sintomas miccionais
  • Se retenção urinária → cistostomia suprapúbica, NÃO cateterização uretral (risco de piorar inflamação prostática)
  • Reavaliar em 48-72h: se piora ou febre persistente → imagem para excluir abscesso
  • Após resolução: avaliar fatores de risco / investigar próstata em paciente >50 anos
11 / Quiz

Teste seu raciocínio.

Escolha a alternativa correta — sem espiar. Cada questão tem feedback didático completo.

Q1. Mulher de 30 anos, hígida, com 1º episódio de disúria + polaciúria de 24h, sem febre. Qual a conduta MAIS adequada?
Q2. Idosa de 75 anos, hígida, assintomática, com urocultura positiva para E. coli >10⁵ UFC/mL trazida pela família. Conduta:
Q3. Mulher de 26 anos com pielonefrite + nefrolitíase com hidronefrose em TC. Estável, sem sepse. Conduta DEFINITIVA:
Q4. Homem de 50 anos com febre, dor perineal e sintomas miccionais há 2 dias. Toque retal: próstata muito dolorosa, quente. Qual conduta NÃO devo fazer?
Q5. Paciente com ITU recorrente (4 episódios/ano). Qual a 1ª medida ANTES de considerar profilaxia antibiótica?
12 / Resumo

Take-home messages.

01

Anatomia define o quadro

Cistite = sintomas locais. Pielonefrite = sintomas locais + sistêmicos + Giordano. Conduta muda radicalmente.

02

E. coli reina

~80% das ITU comunitárias. UPEC com fímbria P adere ao uroepitélio renal — explica pielonefrite.

03

Cistite simples = trate

Empirico, sem exame. Nitrofurantoína 5d ou fosfomicina dose única. Fluoroquinolonas: NÃO.

04

Pielonefrite = urocultura

Sempre. Antes da 1ª dose. Ceftriaxona/cipro 7-14d. Internar se vômito, sepse, gestante, complicada.

05

Obstrução + infecção = drenar

Cálculo obstrutivo + pielonefrite = emergência. ATB sozinho não basta. Nefrostomia ou duplo J urgente.

06

Bacteriúria assintomática

NÃO tratar. Exceto gestante e pré-procedimento urológico. Tratar gera resistência e dano.

07

ITU em homem = complicada

Investigue próstata. Prostatite aguda = febre + dor pélvica + LUTS. ATB com penetração prostática (quinolona) por 2-4 semanas.

08

Recorrência: primeiro o comportamento

Modificar fatores: espermicida, hidratação, micção pós-coito, estrogênio tópico em pós-meno. Profilaxia ATB é segunda linha.

09

Nunca massagem em prostatite aguda

Bacteremia / sepse. Toque retal apenas gentil. Massagem só na investigação da prostatite crônica.

10

PSA não serve no agudo

Inflamação eleva PSA. Reavaliar 6 semanas após resolução. Não usar para decisão no episódio.

11

Imagem: quando pedir?

ITU complicada, recorrência atípica, falha terapêutica em 48-72h, suspeita de obstrução/abscesso. TC sem contraste é o padrão.

12

Gestante: sempre rastreie

Urocultura 12-16 semanas. Trate bacteriúria assintomática. Risco de pielonefrite, parto prematuro, baixo peso.

13 / Framework

Pense em 5 passos.

Toda vez que você se deparar com uma ITU — em prova ou em plantão — passe por estes 5 nós de raciocínio na ordem. Toque em cada cartão para aprofundar.

1
Passo 1 · Anatomia
Baixa ou alta?
Há sintomas sistêmicos (febre, calafrios, vômito, Giordano)?
NÃO
ITU baixa / cistite. Apenas sintomas locais (disúria, polaciúria, urgência, dor suprapúbica).
SIM
ITU alta / pielonefrite. Acometimento parenquimatoso renal — muda toda a estratégia.
Toque para aprofundarRecolher
Por que esse é o 1º passo?

A localização anatômica define tudo: necessidade de exames, escolha de antibiótico, duração, via de administração e local de tratamento. Cistite simples não precisa de urocultura; pielonefrite sempre exige.

Pistas que mudam o raciocínio
  • Giordano (+) — o sinal de exame físico mais específico para pielonefrite
  • Febre > 38°C + calafrios — resposta sistêmica
  • Náusea / vômito — pode contraindicar VO ambulatorial
  • Dor lombar / em flanco — sugere acometimento renal
2
Passo 2 · Complexidade
Complicada ou não?
O paciente é mulher jovem, não-grávida, hígida, sem alteração anatômica?
SIM
ITU não-complicada. Tratamento empírico padronizado funciona >95% das vezes.
NÃO
ITU complicada. Urocultura SEMPRE, considere imagem, ATB mais amplo e curso mais longo.
Toque para aprofundarRecolher
Critérios que tornam a ITU complicada
  • Homem — anatomia masculina raramente permite ITU "simples"; investigue próstata
  • Gestante — risco materno e fetal
  • Criança / idoso
  • Diabético, imunossuprimido, DRC
  • Alteração anatômica/funcional — cálculo, refluxo, sonda, neoplasia, bexiga neurogênica
  • Instrumentação recente — cateterismo, cistoscopia
  • Pielonefrite grave / sepse
  • Falha terapêutica em 48-72h
3
Passo 3 · Red Flags
Há sinais de alarme?
Sepse, obstrução, abscesso, retenção urinária ou instabilidade hemodinâmica?
NÃO
Manejo padrão. Considere ambulatorial se VO tolerada e suporte adequado.
EMERGÊNCIA
Internação + ATB IV amplo + considerar drenagem urgente. Pielonefrite obstrutiva é emergência urológica.
Toque para aprofundarRecolher
O que NÃO pode passar
  • Pielonefrite + obstrução (cálculo) → nefrostomia ou duplo J urgente. ATB sozinho não basta
  • Pielonefrite enfisematosa (diabético, gás no rim) → nefrectomia/drenagem
  • Abscesso renal/perinefrético → drenagem percutânea
  • Sepse / choque séptico → reanimação + ATB de amplo espectro <1h
  • Prostatite aguda → não fazer massagem prostática (sepse iatrogênica)
  • Retenção urinária aguda em prostatite → cistostomia suprapúbica, não cateter uretral
4
Passo 4 · Investigação
Quais exames pedir?
A clínica isolada é suficiente, ou preciso de exames para confirmar / direcionar?
CISTITE SIMPLES
Clínica resolve. Sem EAS, sem urocultura em mulher hígida típica.
COMPLICADA
Urocultura SEMPRE. + EAS, hemograma, função renal. Imagem se suspeita de obstrução/abscesso.
Toque para aprofundarRecolher
Urocultura — pedir quando?
  • Pielonefrite (todas)
  • ITU complicada (qualquer)
  • ITU recorrente
  • Falha terapêutica em 48-72h
  • Gestante (sempre, mesmo assintomática)
  • Pré-procedimento urológico invasivo
Imagem — pedir quando?
  • Suspeita de obstrução (litiásico, dor cólica + febre)
  • Falha de resposta ao ATB em 48-72h
  • Pielonefrite recorrente
  • Hematúria persistente
  • Suspeita de abscesso

Padrão-ouro: TC de abdome sem contraste (stone protocol). Alternativa: US de rins e vias urinárias.

5
Passo 5 · Tratamento
Empírico → ajustado.
Qual antibiótico cobre o provável agente, com a menor pressão de seleção?
PRIMEIRA ESCOLHA
Cistite: nitrofurantoína 5d.
Pielo: ceftriaxona IV ou cipro VO.
Prostatite: quinolona 2-4 semanas.
REAVALIAR EM 48-72h
Se não melhorou: revise dx, considere resistência, peça imagem, ajuste pelo antibiograma.
Toque para aprofundarRecolher
Princípios de antibioticoterapia em ITU
  • Empírico baseado no provável agente (E. coli em ~80% das comunitárias)
  • Considere o perfil de resistência local (não use SMX-TMP se resistência >20%)
  • Evite fluoroquinolonas em cistite simples — guardar para pielo/complicada
  • Beta-lactâmicos não penetram a próstata crônica — em prostatite use quinolona ou SMX-TMP
  • Reavalie e desescale com o antibiograma assim que disponível
  • Duração mínima necessária — cursos mais longos não são "mais seguros"
Não esqueça
  • Bacteriúria assintomática — NÃO trate, exceto gestante / pré-procedimento
  • Hidratação e medidas de prevenção em recorrência
  • Investigação metabólica se litíase de repetição
  • Acompanhamento ambulatorial pós-pielonefrite

Decisão clínica fundamentada

Cinco passos, da anatomia ao seguimento. Se você passa por todos eles antes de prescrever, dificilmente erra a conduta — mesmo nos casos atípicos.